sexta-feira, 20 de julho de 2012

Ironic


An unborn baby today has more legal “protection” of his “right to die” than his “right to life.”
If an abortion is attempted and fails, the mother, for the infant after birth, can sue the doctor for “malpractice.” The crime: failure to kill the baby. The OB-GYN News recently reported how attorneys now can earn over a million dollars per year on suits like this “Cases involving…failed abortion have led to automatic settlements.”


The unborn child was a person when the “malpractice” occurred and under the equal protection clause deserves payment as an “injured” party, collectible at birth. If the newborn can collect damages from an “insult” (failure to be killed) incurred during gestation, this in itself confirms legal recognition that a person with legal rights truly did exist. The tragedy is that since the Supreme Court rulings of 1973 this legal recognition only occurs when life instead of death prevails. Why should this principle not be used to protect the life of the innocent victims? The law as it exists today says a fetus shall receive equal “protection” under the law while the law itself permits (and the government finances) his death. The fetus that deserves life—as all fetuses do—has no protection whatsoever. The law and the state thus become the enemies of life, not the protectors of life, just as they have become thieves when they confiscate property instead of protecting property by punishing theft and protecting rights of property ownership.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

desigualar

De todas as desigualdades existentes, a desigualdade desenhada pelo Estado é a inadmissível, pesada e ilegítima. Porque nesta os seus culpados são mais intencionais do que em qualquer outra. A sabedoria e sensatez conformam-se e adaptam-se às lotarias da natureza mas não podem tolerar as compensações e descompensações de força e capacidade impostas pela vontade da tirania, em especial da democrática.


quarta-feira, 4 de julho de 2012

O Legado do Poder Local em Risco?


Uma ideia frequentemente veiculada pela agenda política e entre a opinião pública é a de que existe, de facto, um excessivo peso da administração pública mas a raíz desse problema reside, em parte, na preservação de uma estrutura ultrapassada com numerosas unidades inúteis que devem ser racionalizadas segundo orientações centrais para, por fim, harmonizar o território e monitorizar potenciais abusos de corrupção local. Nestes termos, conceder autonomia efectiva e funções às instâncias inferiores seria promover a divisão num país já por si pequeno e que deve valorizar antes a unicidade interna.

Esta interpretação parece ver o problema do avesso e incorre na maximização das causas que proporemos aqui combater. O centralismo é a marca dominante que foi incutida ao modelo administrativo português e tem vindo a privar os indivíduos da capacidade de se comprometerem com a sua comunidade e de criarem hábitos de negociação em reciprocidade de benefícios que viabilizassem alternativas de mercado para suprir as necessidades particulares. As competências locais são niveladas por um mínimo denominador comum em prejuízo das economias locais e nos ganhos totais do país, e as transferências partem do mesmo "bolo" do Orçamento de Estado, com tendência a expansão despesista para gerir dimensão política. Conhecendo o despesismo incontrolado a nível nacional (com os mesmos incentivos e dificuldades adicionais de accountability) parece legítimo manter cepticismo quanto a limites, fixados por lei, para disciplinar despesismo local. O que não seria raro de encontrar proposto até por liberais que parecem accionar a ingenuidade quanto à natureza humana, no momento de travar os salteadores em momentos de asfixia orçamental. O nosso ponto central é que transferir funções para uma ordem superior, mais abrangente e distante, quando essas funções podem ser executadas e um nível mais básico de instâncias inferiores é uma deturpação do equilíbrio sustentado, no tempo e no espaço, numa dada comunidade de interajuda e confiança. Essa centralidade gera mais grupos capazes de desviar recursos para alimentar megalomanias públicas ou interesses pessoais e se isso acontece a nível local não há particular iniquidade nisto mas sim incentivos perniciosos centrais que alastram até às instâncias mais básicas.


As unidades administrativas que designamos, e repensamos hoje, como freguesias remontam a uma experiência histórica de séculos, fundada na necessidade de socialização e cooperação e incutida de valores agregadores de sinergias internas que foram inscritos na ordem territorial, muitas vezes com reflexos de rivalidades fronteiriças em defesa da própria comunidade. Tendo o seu processo embrionário entre a romanização, e a sua derivada componente cristã, as freguesias desenharam-se pela organização paroquial e em torno das primeiras manifestações religiosas peninsulares, tanto em aglomerados urbanos como em zonas predominantemente rurais. A titularidade de cidade, aquando da Reconquista Cristã e a definição territorial ao longo do século XIII e XIV, perseguiram a necessidade de delimitar as freguesias, numa realidade ainda imaculada de racionalizações e simplificações gerais, contudo, só no século XIX, já sob domínio do ideário republicano e laicista, as freguesias passaram a ser abrangidas na organização administrativa portuguesa.

Para uma detalhada e completa descrição da história das freguesias em Portugal, que não nos cabe aqui desenvolver, pode ser sugestiva a leitura de As Freguesias: História e Actualidade, de José António Santos, o qual citamos a propósito da importância das freguesias que extravasa, em larga medida, o domínio religioso: As paróquias ou freguesias têm a seu crédito o exercício de importantes funções locais atinentes ao quotidiano da vivência das comunidades respectivas. (...) Desde os primórdios, em colaboração nomeadamente com outras instituições da Igreja, inclusive as monacais, a sua acção está presente em múltiplos campos da área social, com relevância directa ou indirecta e em maior ou menor grau, nos concernentes a desempenhos de beneficência, instrução público, orfanatos, misericórdias e hospitais, actividades exercidas quase sempre em substituição ou em complemento do próprio Estado.


Como será de fácil ilacção, o desenvolvimento das freguesias não se deu ao acaso ou por decreto superior. Deu-se adjacente às condicionantes que levaram à permuta de serviços, emergência das actividades agrícolas possíveis, aproveitamento e partilha de certos bens e equipamentos. Estas interacções só eram possíveis perante a consciência da vantagem na colaboração e, tal como agora, parece um argumento frágil apontar que a reforma no sentido do fortalecimento e autonomia dos municípios envolveria mais despesa para o Estado numa altura de contenção. Se a administração central deixar de encerrar em si uma panóplia de competências passíveis de delegar aos municípios, deverá deixar de utilizar os respectivos recursos, já que esses ficariam afectos a quem ficar com as atribuições, sendo previsível também que as despesas acabem por descer, a longo prazo, graças à resolução menos complexa dos problemas, ao encurtar do tempo de resposta, à menor perda de sinais de mercado e ao refreamento da disfunção burocrática.

Depois do referendo de 1998, ignorado talvez pelo desadequado mapa das regiões proposto ou pela irrelevância na forma como foi problematizado e debatido, tentando homogeneizar o que não quer ser homogeneizado (pelo menos por imposição superior), permanecemos conformados perante a falta de desconcentração da gestão, perante a ausência de colaboração ligada por instâncias intermédias e perante o programático da nossa CRP que, formalmente, consagra a administração pública como sendo estruturada de modo a evitar burocratização, a aproximar serviços das populações e assegurando que os interessados participam na gestão. Enunciados sonantes não faltam e, para além da inconsequência destes enunciados que preconizam descentralização e subsidiariedade, a discussão fica desprovida de utilidade quando se centra essencialmente em números e reformas feitas em cima do joelho por pressão orçamental, em vez de centrar a atenção nas atribuições que permitiram colmatar desperdício de recursos e a participação efectiva e expressamente interessada.

Perante tudo isto e reconhecendo a necessidade de cortar nas despesas que a nossa administração pública encerra, a solução para este problema passa por dinamitar o foco que mais controla e mais consome e, por outro lado, impedir uma táctica de "terra queimada" promovida por Lisboa que tenta, a todo o custo, convencer o país de que os pecados são cometidos por autarcas e que urge afastar os recursos do egoísmo e irresponsabilidade das populações locais. Estamos conscientes de que a prevalência de um modelo centralizado e autista em Lisboa gera ainda mais distorções das capacidades regionais, (como pode ser observado globalmente pela conhecida transferência de riqueza do Norte excedentário e competitivo para a Lisboa, dominada pelo sector dos não transaccionáveis e acumuladora de défice). Devemos, numa concepção que privilegia o indivíduo e a continuidade das suas relações em comunidade, defender uma extensão progressiva das competências a nível municipal como centros de decisão facilitadores de negociação na provisão de ensino e formação profissional, transportes, favorecimento de uma política voluntária de ordenamento do território, laboral, colaboração com empreendimentos empresariais, e gestão mais responsável do património administrado pelas autoridades locais.

A capacidade do Estado central captar receitas, no quadro preferencial da descentralização fiscal, vê-se restringida pela acrescida vigilância dos indivíduos perante a expectativa de retorno pois estes estarão mais conscientes dos montantes tributados e da aplicação dos mesmos. Também controlarão melhor usurpadores da renda alheia, em defesa da propriedade, abster-se-ão de usurpar porque a punição social e a perda de prestígio social envolve um custo irreversível e absurdo, e ainda, verão facilitada a comunicação com os prestadores de serviços, favorecendo as alternativas mais vantajosas. Gostos, capacidades produtivas, diversidade cultural, características demográficas e aspirações diversificadas, insondáveis a qualquer planeamento central, definem procuras e ofertas muito específicas e a qualidade da resposta não se coaduna com critérios de equidade, solidariedade e desenvolvimento económico nivelados e impostos pela capital, especialmente quando Lisboa serve de altifalante à embaraçada argumentação estritamente político-partidária que revela pura resistência para conservar os cerca de 80% de funcionários concentrados na administração central.

Todos os interesses que deviam ser zelados por municípios estão à mercê de um ministro que reside em Lisboa, e que nem os conhece, nem devidamente os aprecia. Daqui resulta o predomínio da capital sobre as províncias, a pouca vida política destas, a sua anulação, e quase nenhuma acção sobre os negócios públicos; enfim, daqui vem a influência funesta de certos homens que, colocados pelo acaso, ou pelos cálculos da sua ambição, no foco onde se concentram todos os poderes, lançaram mão deles, e subjugam por este modo o reino, que pode, mas que já lhes não sabe resistir.

Alexandre Herculano – Opúsculos, Tomo I, Edição de Joel Serrão, Livraria Bertrand, 1983



Numa época de proximidade, imediatismo, trocas e deslocações encurtadas, valerá a pena repensar a proximidade dos municípios e freguesias, não como empecilhos retrógrados mas como células estratégicas em plena e prudente ligação com outras unidades. Só conscientes das capacidades endógenas e perto da agregação de interesses, como atenuante de alguns danos inerentes ao contexto democrático poderão ser viabilizadas alternativas de mercado que desviem o abusivo tentáculo do Estado. A diferença está em perceber que a solução, mesmo no recente Documento Verde, não pode partir de cima mas deve, isso sim, seguir uma coordenação territorial mais negociada entre as partes no local, na posse de informação valiosa e que não esqueça a importância do financiamento local como travão ao caciquismo. Quando a vontade de colaborar com outros grupos parte da base, assente nas próprias escolhas, reflecte a importância de laços familiares, redes de contactos profissionais, comunhão dos mesmos cultos, trocas comerciais e uma multiplicidade de outras relações civis que se cristalizaram num certo território. Partindo dessas escolhas autónomas é possível então explorar concertação horizontal e rede de parcerias voluntárias, na formação de capital social. Será crucial perseguir este ideal mesmo se o Estado central, amanhã, acenar com o lançamento do último "grito tecnológico" da versatilidade na captação de informação, prometendo um sistema de cálculo de outputs infalível e unificado que substitua os elos de proximidade. Simplesmente porque a experiência histórica não compactua com promessas paradoxais.
Publicado inicialmente no Movimento Libertário

sábado, 16 de junho de 2012

os espinhos fazem falta


O que foi normalizado não ficou normal, foi adulterado. Foi-nos apresentado clareado, liso e límpido mas não é intacto. É amputado. Lixaram-nos as pedras em bruto onde escalávamos com saber e perícia acumulada e deixaram-nos vértices agudos e cortantes na queda livre. Queríamos coisas cruas, rugosas, desniveladas e esvaziaram-nos as vontades. Fecharam-nos numa sala envernizada de cansaço com janela aberta para o desfile das capacidades minguantes.  

sexta-feira, 8 de junho de 2012

a confiança é uma anedota...

...entre pessoas que não conheço de lado nenhum.
E a ordem espontânea é uma ideia muito interessante
mas é no meu quintal.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

..it is a fundamental principle of social philosophy, fixed and unchangeable, that one should not withdraw from individuals and commit to the community what they can accomplish by their own enterprise and industry.  So, too, it is an injustice and at the same time a grave evil and a disturbance of right order, to transfer to the larger and higher collectivity functions which can be performed and provided for by lesser and subordinate bodies.  Inasmuch as every social activity should, by its very nature, prove a help to members of the body social, it should never destroy or absorb them.

Pope Pius XI,1931
*No. 79 in Paulist translation
Decentralism and Subsidiarity: Applications to Society and Culture

domingo, 29 de abril de 2012

"The Sad Loss of Gender"



At the end of the 20th century, the modern myth of sexual equality has finally triumphed completely over the complementarity of gender, in which the plurality of cultures - distinct ways of living, dying and suffering - was rooted. The reign of vernacular gender marked a profoundly different mode of existence than what prevails under what I call the regime of economic sex. They are male/female dualities of a very different kind: Economic sex is the duality of one plus one, creating a coupling of exactly the same kind; gender is the duality of two parts that make a whole which is unique, novel, nonduplicable.

By "economic sex" I mean the duality that stretches toward the illusory goal of economic, political, legal and social equality. Male and female are neutered economic agents, stripped of any quality other than the functions of consumer and worker.

By "complementary gender" I mean the eminently local and time-bound duality that sets off men and women under circumstances that prevent them from saying, doing, desiring, or perceiving "the same thing." Together they create a whole which cannot be reduced to the sum of equal, merely interchangeable parts; a whole made of two hands, each of a different nature. To me, the fetus is a symbol of the corruption of hope, just as the medicalization of dying is the corruption of agony. Hope is transformed into expectation - the awaited results of technological intervention.

Now, with new medical technologies, the embryo becomes a "fetus"; the "notyet" loses its mystery as we see it in the sonogram. It becomes another patient, another disconnected part of a way of being to be managed. To me, the fetus is a symbol of the corruption of hope, just as the medicalization of dying is the corruption of agony. Hope is transformed into expectation - the awaited results of technological intervention.

The fetus thus serves as a new emblem of what the future will be. Every moment of existence, since it is all encompassed by the "system, " is a profaned domain open to intervention.
The final step of "systems thinking" is the elimination of time itself. With real-time computers that are never shut down, all potentiality will be subject to management, choice, selection and intervention. The future will hold no surprises because it will be part of the present.

Ivan Illich,

Texto completo aqui.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Sente-se no ar o alastrar de traição

Nenhuma consciência patriótica pode manter-se indiferente perante o 25 de Abril porque ousar negligenciar a data do apogeu democrático nacional é sinal de cegueira e de declínio moral, fruto de contaminação por correntes de pensamento populistas e hereges. E não são poucos os que parecem querer demitir-se da obrigação de relembrar religiosamente a acção corajosa dos capitães que tão vigorosamente expressaram a verdade da maioria. É assustador assistir a essa perda de entusiasmo que se engrossa de ano para ano. As razões para este declínio alarmante só podem residir em alguma força malévola escondida e que urge identificar para neutralizar antes que seja tarde. Que se arrependa de imediato quem confundiu essa odiável resignação contra a nossa democracia com uma ingénua e bem intencionada vontade livre. Não são mais do que agentes escondidos, prontos para contaminar a nação com propostas radicais e egoístas que não atentam à saúde, igualdade e liberdade do seu povo.

Não chega recordar esta, que é a preponderante efeméride do calendário nacional de todo o português, mas garantir também que ninguém se aparta da sua comemoração nem questiona a sua relevância bem como todos os valores que lhe estão implícitos. O primeiro deles é o valor democrático e é o compromisso com a democracia que deve incitar cada um de nós a rejeitar de ano para ano, o governo ultrajante que ocupa o poder. Deve incitar ainda a manter acessa a luta contra o cancro abstencionista que não é sinal de nada, mas é apenas um fenómeno de imperfeição que deve ser combatido quanto antes, por meio de um estímulo à participação até que se concretize a escolha democrática verdadeira; aquela que ainda não foi completamente cumprida e que é a única via perfeita para o melhor interesse comum e harmonia da sociedade. É no sentido desta idealização por cumprir que devem ser direccionados todos os discursos que serão epopeias que farão encolher-se de vergonha os corajosos de Aljubarrota e farão chorar Camões, porque jamais outro acontecimento teve tamanho significado.

A passividade nunca se manifesta por acaso. Neste 25 de Abril, cada um deve olhar para o seu próximo e procurar se este ostenta em si um cravo ou se, pelo contrário, revela indiferença e, pior ainda, resistência e sarcasmo. Tolerar tal atitude é uma traição pelos ideias que motivaram a luta contra os reaccionários do passado. Tolerar tal atitude é não colaborar com os reaccionários do presente.

Brigada do Reumático 2012

domingo, 22 de abril de 2012

rota de colisão



Será estranha, teimosa ou racional a ausência de arrependimento, quando este mais devia pesar?

Se for estranha, é porque uma certa decisão resultou da construção individual, feita de impressões erradas mas mantidas, resultando num conforto que vale a pena conserva. Um atentado à realidade, forjador de sinais sem permissão alheia. Resulta daqui um objecto estranho, transformado livremente pela imaginação e desejo de quem o fabrica.

Caso seja teimosa, há um movimento de inversão às constatações e ignoram-se as punições da realidade para evitar a sensação incomportável de desperdício pessoal ao longo do tempo.
  
E se for racional, é porque reconhece-se vantagem em manter intacta a construção estranha com a teimosia de quem não abdica do seu valor pessoal face à aterradora aleatoriedade da sorte, à ingratidão dos seus semelhantes ou a lapsos de informação fatais.

Uma falha de expectativa para um submisso aos incentivos, é um choque paralisador. Para um teimoso com vontade própria é somente um desvio temporário de readaptação de comportamento, numa posição mental agradável e arriscada, assumida por conta de si mesmo. Deus pode dar nozes a quem não tem dentes mas há quem tenha paciência de aguardar pela ligeira compensação de ver as gengivas do seu rival a sangrar.




quarta-feira, 18 de abril de 2012

recusou à pressa o que nunca viu


Era aborrecido, não por ser longo demais; nada se prolongava.
Era aborrecido, não por ser fugaz, escapando-lhe a meio do empenho.
Antes fosse essa existência de perigo que, ténue, o agarrava.
Mas era aborrecido...e não por ser cansativo
porque nem se cansou com aquilo e aborreceu-se entretanto.
Perdeu o encanto porque o encantamento soava-lhe a repetição.
Enjeitava as novidades nos outros
por causa dessa repetição que era nele só uma impressão.
Não lhe aborrecia ver o desperdício nas coisas enjeitadas e a dor nelas
mas arrependia-se delas por não ganhar nada para si e a todo o tempo
ter de mudar, intercalar, interromper.
O aborrecimento estava nele, que o sentia
e as coisas rejeitadas não eram inúteis em si mesmas.
Mas estas dilaceradas, angustiavam-se
por nada conseguirem inventar para deixar de o aborrecer.

banda sonora de estudo

terça-feira, 3 de abril de 2012

Isto da falta de arte em ser sucinto toma muito tempo a uma pessoa. Ideias em convulsão + o tempo de luxo em ser extenso e redundante + tempo de amputação à obra + o 'finalmente' em estado bruto e entendível que qualquer mestre da síntese atira de início 'like a boss'. Que desperdício e enfado de 'entretantos'...!

domingo, 25 de março de 2012

estou sempre por aqui mas estou já de saída


Aquele que se autoproclama da autoridade e desejo genuíno de querer ajudar todos em geral, encontrou a forma mais convincente de não ser questionado, de conservar a distância de segurança e de ter uma fonte de admiração prolongada porque teme o dia em que tenha, efectivamente, de fazer alguma coisa por alguém em particular.


terça-feira, 20 de março de 2012

It is vain to tell us that we ought to overlook local interests. It is only by protecting local concerns that the interest of the whole is preserved. No man when he enters into society does it from a view to promote the good of others, but he does it for his own good. All men having the same view are bound equally to promote the welfare of the whole. To recur then to such a principle as that local interests must be disregarded, is requiring of one man to do more than another, and is subverting the foundation of a free government.

Agrippa, Antifederalist No. 11

domingo, 18 de março de 2012

Sarah Slean - Drastic Measures



Don’t you want my love 
It’s a cloud it’s a broken boat 
But it might make you laugh a bit 
Easier 
I’m like the trees in the midnight parks 
Oozing danger igniting sparks 
We’ve been left by the viaducts 
With the last flame 
Of the Universe 

domingo, 11 de março de 2012

paradoxos do tempo


A noção da finidade do tempo é o único incentivo à acção. Só isso explica que consiga rentabilizar melhor 1 hora e 30 minutos, rigorosamente cronometrados com fim à vista, numa viagem de comboio, do que num fim-de-semana inteiro que serve de dispensa reservada às impossibilidades semanais mas afinal sucumbe numa maré de desperdício.

Neste caso, em vez de estar no comboio a pensar "que bom vai ser um fim-de-semana para adiantar tanto do planeado e adiado", será antes um longo fim-de-semana de intermitências com peso na consciência e a encontrar alívio no pensamento: "que jeito vai dar a próxima viagem de comboio para compensar estes dias parvos que interrompem-me sempre no pico da produtividade".

Os fins-de-semana sem viagem de comboio são ainda piores. Não há metas nem redenção possível.

terça-feira, 6 de março de 2012

O Marxismo Cultural Feminista de Bruxelas

Mais uma vez assistimos à omnisciente União Europeia a velar pelo equilíbrio das nossas sociedades, cheias de tendências obstinadas, que carecem de um tutor. Se já é banal assistirmos às regulamentações caricatas diariamente, desta vez elas trazem consigo os laivos do feminismo sedento de tratamento preferencial; referimos-mos assim às quotas por género. Sendo uma das bandeiras sobejamente conhecidas nos últimos anos, sob alçada de recomendações internacionais, revela-se agora na União Europeia a ambição de punir empresas que não promovam mais mulheres nos cargos de administração de empresas.

Uma modalidade mais frequente das quotas por género é aquela que ganha terreno facilmente no âmbito da representação política, contando com a obrigatoriedade na Constituição ou na lei eleitoral de alguns países, como a Eslovénia, Bélgica e Franca, ou com a adesão voluntária por parte de alguns partidos, no caso de países como Alemanha, Noruega e Suécia. Se este critério pode levantar muitas questões nestes casos, a aplicação de imposições e punições por parte de uma autoridade como a Comissão Europeia, atropelando instituições democráticas nacionais e imiscuindo-se nas decisões de empresas, revela-se ultrajante.

Os objectivos são agora declarados abertamente pela Comissária Europeia para a Justiça, Viviane Reding, que já em Setembro de 2011, num encontro de escolas de gestão afirmava:Todos temos de contribuir para que os nossos talentos femininos considerem seguir esse percurso em primeiro lugar. Fico particularmente satisfeita com o envolvimento das escolas de gestão europeias neste processo. Tranquiliza me ver que o sector da educação está seriamente empenhado em atacar as raízes desta desigualdade. O seu desejo tornado público passa pelo comprometimento das empresas em aumentarem o número de mulheres nos conselhos de administração, numa meta de 30%, até 2015, e 40% até 2020. A Comissão Europeia autoproclama-se com autoridade para avaliar progressos de empresas que enveredem por este caminho para então ponderar medidas futuras caso o "progresso" registado não seja suficientemente satisfatório, derivando daí o seu plano implacável contra os tão tenebrosos constrangimentos que teimem em continuar.

Toda esta estratégia vem pisar as bases fundamentais de uma sociedade livre, numa economia de mercado pois começa, desde logo, por contrariar a igualdade de oportunidades. A igualdade de oportunidades nada tem a ver com acertos falsificados de resultados; a igualdade de oportunidades é a completa abertura e liberdade, no ponto de partida, para fazer vingar as capacidades próprias sem interferência do Estado, num meio com constrangimentos próprios que são sentidos por todos e que irá premiar os mais aptos, incentivando os restantes a deslocarem-se para outras potenciais oportunidades. Esta proposta (aliás, ameaça) de quotas é uma machadada na meritocracia quando ousa tentar corrigir a distribuição de mulheres e homens através do favorecimento das primeiras. Considerando-as como grupo oprimido, parecem merecer agora um suposto "ajuste de contas" com a história, onde tudo é lícito, incluindo a redução de representação dos elementos do sexo masculino que tenham conquistado os seus cargos, revertida para o acréscimo falseado na percentagem feminina.

No caso de os empresários assistirem ao avanço desta proposta, ver-se-ão impedidos de continuar a escolher os seus colaboradores com base na produtividade de cada um e a promover o benefício mútuo. Estarão limitados na capacidade de concederem oportunidades aos indivíduos mais habilitados a aplicarem plenamente o seu esforço em determina função e, por outro lado, serão constrangidos a integrar elementos femininos numa condescendência que trabalha para cumprir as estatísticas. Não é racional que um empresário não contrate mulheres e/ou promova uma das suas colaboradoras quando vê sinais de vantagem para a empresa e para os seus lucros. Da mesma forma, é lógico que as diferenças salariais decorrem da produtividade de homens e de mulheres e se existissem razões para deixar de se registar essa desigualdade, os empresários seriam os primeiros a decidir pela alteração, de forma a incentivar os mais competentes a continuarem a colaborar e não escaparem para outro contrato mais atractivo. O que esta proposta vem preconizar mais uma vez é a proibição da discriminação, forma voluntária pela qual os indivíduos, de igual para igual, escolhem ou recusam associar-se a outros, consoante as suas preferências, necessidades, laços pessoais, etc... O impedimento ao acto de rejeição/escolha pode afectar a própria harmonia social de associação pacífica ao contrariar o curso natural da organização e delegação de poder nas empresas e ao forçar o desmantelamento da ordem que o empresário definiu como útil. Mas, acima de tudo, é um factor de desmotivação interna, obviamente ignorado pelo corpo europeu centralizado que define valores homogéneos à força, ditando prazos para consumar a sociedade perfeita.

A ideia de que é necessário procurar uma proporcionalidade estatística como ponto de equilíbrio é negar que existem desigualdades em consequência de diferentes características pessoais e de desempenho e pretende, somente, usar o discurso igualitário para fazer avançar legislação favorável, envolta na típica justificação de complexidade social que só a burocracia do Estado pode vencer. Numa sociedade livre, cabe ao proprietário escolher contratações e demissões, no sentido que potencie mais a sua vantagem competitiva no mercado, enquanto o pretensioso discurso oficial do "longo caminho a percorrer" incorre somente em desperdícios ao tentar aplicar receitas contra a divisão do trabalho e diversidade voluntária. As quotas por género, ao ignorarem indivíduos e circunstâncias concretas, no tempo e no espaço, soam como reparações de guerra que o sexo oposto parece estar obrigado perpetuamente a pagar.

"So far as Feminism seeks to adjust the legal position of woman to that of man, so far as it seeks to offer her legal and economic freedom to develop and act in accordance with her inclinations, desires, and economic circumstances—so far it is nothing more than a branch of the great liberal movement, which advocates peaceful and free evolution. When, going beyond this, it attacks the institutions of social life under the impression that it will thus be able to remove the natural barriers, it is a spiritual child of Socialism. For it is a characteristic of Socialism to discover in social institutions the origin of unalterable facts of nature, and to endeavour, by reforming these institutions, to reform nature...." Ludwig von Mises

Publicado inicialmente no Movimento Libertário

domingo, 4 de março de 2012

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

One Of Us Cannot Be Wrong

I lit a thin green candle
to make you jealous of me
but the room just filled with mosquitos
they heard that my body was free
then I took the dus from a long sleepless night
and I put it in your little shoe
then I confess that I tortured the dress
that you wore for the world to see through.

(...)

I heard of a saint who had loved you
so I studied all night in his school
He taught us the duty of lovers
was to tarnish the golden rule
And just when I was sure that his teachings were pure
he drowned himself in a pool
His body is gone but back here on the lawn
his spirit continues to drool.

Leonard Cohen

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

vai dando para remediar

Poucas coisas são mais desanimadoras do que procurar exemplos completos, numa realidade tão teimosamente corrompida e que anda sempre com muitos passos de atraso em relação à nossa expectativa. Esgotados os países, concluo que este mundo é feio demais para ser investigado. Na impossibilidade de aplicar os critérios ao contexto de Marte ou da Lua, resta descer o patamar de exigência, ser muito pessimista para tentar ser surpreendido de vez em quando e meter algum "idealismo" na gaveta, a mero título provisório. Já tenho o Top do Index of Economic Freedom todo riscado. É um grande chapadão novo todos os dias... mas vamos lá tentar dar a outra face, outra vez.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A SIC Mulher encadeia-me os olhos


Ninguém é excepcionalmente inteligente ou louco solitário quando afirma, no meio da manada, não suportar programas de canais generalistas ou temáticos – estes últimos que permitem dividir por categorias o tipo de trampa que estamos mais predispostos a ver em dado momento para rentabilizar melhor o tempo (embora ninguém que se amarfanhe no sofá, estilo alforreca, apresente sinais convincentes de ter amor ao tempo útil).

Sendo uma idiotice batida, ainda assim eu insisto em falar em mediocridade televisiva porque há um programa, em particular, que sempre me incomodou. A maioria deixa-me indiferente e consigo mudar mas aquele desperta-me desespero e vontade de partir paredes falsas e chamar o MacGyver para engendrar uma bomba com velinhas de cheiro e incenso nos bastidores.

A consistência que alimenta a coisa é: existe alguém que tem uma casa que não lhe agrada porque se cansou do estilo, ou não teve condições de investir na manutenção, ou era uma casa enorme e acima das possibilidades/necessidades, ou a casa da vizinha e da novela é “tããoo mais linda que a minha”, ou ainda (neste caso seria eu a solicitar) porque quer pregar um susto de morte a um familiar ou amigo e entrega a residência a um bando de gays e trintonas loucas, especializadas em revestimento delicodoce de madeira palha. O investimento fica a cargo das marcas que têm os seus minutos de fama, as pessoas “ganham” uma nova decoração e o canal televisivo ganha programação para encher muitas horas.

O programa pode ensinar-nos então algumas das manias que as pessoas têm, entre as quais: convicção de que alguma entidade externa e desconhecida consegue revolucionar o nosso bem-estar muito melhor do que nós próprios; ilusão de que um capricho ou mudança de humor, ou mesmo uma necessidade, pode ser respondida no imediato e sem grandes custos; ideia de que existirá sempre, algures, alguém desinteressado que nos paga almoços porque nos quer melhorar a vida, só porque sim; e mania de gerir a vida a toque de entusiasmos rápidos sem capacidade de ponderar desvantagens e desconfortos a longo prazo. Visto isto, diríamos que o programa até é bom porque nos ajuda a pôr em evidência estas tendências que se aplicam a outras áreas. Mas assistir a isto em bruto…

Como digo, todos ganham mas os indivíduos que são servidos no programa ganham entre aspas. Ganham a intromissão de gente em casa que teve aulas práticas em casas de bonecas com mestrado em bibelôs. Eles agarram nas grades mais inúteis que já tivemos na nossa vida, ao fundo do quintal, e pincelam a rosa choque; rapidamente aquela grade ferrugenta onde a nossa cadela sempre entalava o pescoço, ganha mais cor e isso surpreende-nos muito. Abrem um furo para pendurar um expositor de talheres na cozinha mas rebentam-nos os canos mas – “Rápido, tragam-me um quadro do Mário Cesariny! Fabuloso, olhe, mal se nota”.

Acho que isto basta para deixar bem representado o cenário de improvisos almofadados, durabilidade de ikea, ambientadores inibidores da podridão, células mortas envernizadas, sobreposição forçada de elementos exóticos e padrões afeminados que nos dão vontade de enfiar a cabeça no primeiro abajour que aparecer à frente. Até os cenários do cinema western conseguem parecer mais consistentes que aquela fragilidade pintada a verde alface, flores de plástico e os cristais Vista Alegre que ninguém usa para comer os cornflakes ao pequeno almoço. Ou os sofás de jardim que se enchem de húmus no Inverno enquanto as barraquinhas voam para o quintal da vizinha.

A obsessão com a mudança radical à responsabilidade de terceiros, o investimento (nem que seja a crédito) sem questionar a verdadeira utilidade e a indiferença perante o risco iminente de desmoronamento são sinais que estão no "Querido Mudei a Casa" e em todo o lado. Simplesmente, a maioria das pessoas não pensa duas vezes antes de delegar funções ao primeiro larilas que se diz especialista mas nunca teve de aspirar a desviar-se dos emplastros ou que não tem miúdos em casa que levem com o Buda na mona depois de tropeçar no candeeiro em forma de papoila gigante. A megalomania e os papéis de parede coloridos só tapam as paredes de terra batida entre pessoas que não percebem que depois do programa, depois de dispensar o acessório e as distracções – vidrinhos, espanta espíritos, gaiolas vazias e velinhas – deixaram que lhes construíssem um lar à base de prateleiras padronizadas e baratas. Ninguém dá nada a ninguém e ninguém sabe melhor gerir e decorar a vida do que nós próprios. Até nisto, as lições começam em casa.