domingo, 29 de abril de 2012

"The Sad Loss of Gender"



At the end of the 20th century, the modern myth of sexual equality has finally triumphed completely over the complementarity of gender, in which the plurality of cultures - distinct ways of living, dying and suffering - was rooted. The reign of vernacular gender marked a profoundly different mode of existence than what prevails under what I call the regime of economic sex. They are male/female dualities of a very different kind: Economic sex is the duality of one plus one, creating a coupling of exactly the same kind; gender is the duality of two parts that make a whole which is unique, novel, nonduplicable.

By "economic sex" I mean the duality that stretches toward the illusory goal of economic, political, legal and social equality. Male and female are neutered economic agents, stripped of any quality other than the functions of consumer and worker.

By "complementary gender" I mean the eminently local and time-bound duality that sets off men and women under circumstances that prevent them from saying, doing, desiring, or perceiving "the same thing." Together they create a whole which cannot be reduced to the sum of equal, merely interchangeable parts; a whole made of two hands, each of a different nature. To me, the fetus is a symbol of the corruption of hope, just as the medicalization of dying is the corruption of agony. Hope is transformed into expectation - the awaited results of technological intervention.

Now, with new medical technologies, the embryo becomes a "fetus"; the "notyet" loses its mystery as we see it in the sonogram. It becomes another patient, another disconnected part of a way of being to be managed. To me, the fetus is a symbol of the corruption of hope, just as the medicalization of dying is the corruption of agony. Hope is transformed into expectation - the awaited results of technological intervention.

The fetus thus serves as a new emblem of what the future will be. Every moment of existence, since it is all encompassed by the "system, " is a profaned domain open to intervention.
The final step of "systems thinking" is the elimination of time itself. With real-time computers that are never shut down, all potentiality will be subject to management, choice, selection and intervention. The future will hold no surprises because it will be part of the present.

Ivan Illich,

Texto completo aqui.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Sente-se no ar o alastrar de traição

Nenhuma consciência patriótica pode manter-se indiferente perante o 25 de Abril porque ousar negligenciar a data do apogeu democrático nacional é sinal de cegueira e de declínio moral, fruto de contaminação por correntes de pensamento populistas e hereges. E não são poucos os que parecem querer demitir-se da obrigação de relembrar religiosamente a acção corajosa dos capitães que tão vigorosamente expressaram a verdade da maioria. É assustador assistir a essa perda de entusiasmo que se engrossa de ano para ano. As razões para este declínio alarmante só podem residir em alguma força malévola escondida e que urge identificar para neutralizar antes que seja tarde. Que se arrependa de imediato quem confundiu essa odiável resignação contra a nossa democracia com uma ingénua e bem intencionada vontade livre. Não são mais do que agentes escondidos, prontos para contaminar a nação com propostas radicais e egoístas que não atentam à saúde, igualdade e liberdade do seu povo.

Não chega recordar esta, que é a preponderante efeméride do calendário nacional de todo o português, mas garantir também que ninguém se aparta da sua comemoração nem questiona a sua relevância bem como todos os valores que lhe estão implícitos. O primeiro deles é o valor democrático e é o compromisso com a democracia que deve incitar cada um de nós a rejeitar de ano para ano, o governo ultrajante que ocupa o poder. Deve incitar ainda a manter acessa a luta contra o cancro abstencionista que não é sinal de nada, mas é apenas um fenómeno de imperfeição que deve ser combatido quanto antes, por meio de um estímulo à participação até que se concretize a escolha democrática verdadeira; aquela que ainda não foi completamente cumprida e que é a única via perfeita para o melhor interesse comum e harmonia da sociedade. É no sentido desta idealização por cumprir que devem ser direccionados todos os discursos que serão epopeias que farão encolher-se de vergonha os corajosos de Aljubarrota e farão chorar Camões, porque jamais outro acontecimento teve tamanho significado.

A passividade nunca se manifesta por acaso. Neste 25 de Abril, cada um deve olhar para o seu próximo e procurar se este ostenta em si um cravo ou se, pelo contrário, revela indiferença e, pior ainda, resistência e sarcasmo. Tolerar tal atitude é uma traição pelos ideias que motivaram a luta contra os reaccionários do passado. Tolerar tal atitude é não colaborar com os reaccionários do presente.

Brigada do Reumático 2012

domingo, 22 de abril de 2012

rota de colisão



Será estranha, teimosa ou racional a ausência de arrependimento, quando este mais devia pesar?

Se for estranha, é porque uma certa decisão resultou da construção individual, feita de impressões erradas mas mantidas, resultando num conforto que vale a pena conserva. Um atentado à realidade, forjador de sinais sem permissão alheia. Resulta daqui um objecto estranho, transformado livremente pela imaginação e desejo de quem o fabrica.

Caso seja teimosa, há um movimento de inversão às constatações e ignoram-se as punições da realidade para evitar a sensação incomportável de desperdício pessoal ao longo do tempo.
  
E se for racional, é porque reconhece-se vantagem em manter intacta a construção estranha com a teimosia de quem não abdica do seu valor pessoal face à aterradora aleatoriedade da sorte, à ingratidão dos seus semelhantes ou a lapsos de informação fatais.

Uma falha de expectativa para um submisso aos incentivos, é um choque paralisador. Para um teimoso com vontade própria é somente um desvio temporário de readaptação de comportamento, numa posição mental agradável e arriscada, assumida por conta de si mesmo. Deus pode dar nozes a quem não tem dentes mas há quem tenha paciência de aguardar pela ligeira compensação de ver as gengivas do seu rival a sangrar.




quarta-feira, 18 de abril de 2012

recusou à pressa o que nunca viu


Era aborrecido, não por ser longo demais; nada se prolongava.
Era aborrecido, não por ser fugaz, escapando-lhe a meio do empenho.
Antes fosse essa existência de perigo que, ténue, o agarrava.
Mas era aborrecido...e não por ser cansativo
porque nem se cansou com aquilo e aborreceu-se entretanto.
Perdeu o encanto porque o encantamento soava-lhe a repetição.
Enjeitava as novidades nos outros
por causa dessa repetição que era nele só uma impressão.
Não lhe aborrecia ver o desperdício nas coisas enjeitadas e a dor nelas
mas arrependia-se delas por não ganhar nada para si e a todo o tempo
ter de mudar, intercalar, interromper.
O aborrecimento estava nele, que o sentia
e as coisas rejeitadas não eram inúteis em si mesmas.
Mas estas dilaceradas, angustiavam-se
por nada conseguirem inventar para deixar de o aborrecer.

banda sonora de estudo

terça-feira, 3 de abril de 2012

Isto da falta de arte em ser sucinto toma muito tempo a uma pessoa. Ideias em convulsão + o tempo de luxo em ser extenso e redundante + tempo de amputação à obra + o 'finalmente' em estado bruto e entendível que qualquer mestre da síntese atira de início 'like a boss'. Que desperdício e enfado de 'entretantos'...!

domingo, 25 de março de 2012

estou sempre por aqui mas estou já de saída


Aquele que se autoproclama da autoridade e desejo genuíno de querer ajudar todos em geral, encontrou a forma mais convincente de não ser questionado, de conservar a distância de segurança e de ter uma fonte de admiração prolongada porque teme o dia em que tenha, efectivamente, de fazer alguma coisa por alguém em particular.


terça-feira, 20 de março de 2012

It is vain to tell us that we ought to overlook local interests. It is only by protecting local concerns that the interest of the whole is preserved. No man when he enters into society does it from a view to promote the good of others, but he does it for his own good. All men having the same view are bound equally to promote the welfare of the whole. To recur then to such a principle as that local interests must be disregarded, is requiring of one man to do more than another, and is subverting the foundation of a free government.

Agrippa, Antifederalist No. 11

domingo, 18 de março de 2012

Sarah Slean - Drastic Measures



Don’t you want my love 
It’s a cloud it’s a broken boat 
But it might make you laugh a bit 
Easier 
I’m like the trees in the midnight parks 
Oozing danger igniting sparks 
We’ve been left by the viaducts 
With the last flame 
Of the Universe 

domingo, 11 de março de 2012

paradoxos do tempo


A noção da finidade do tempo é o único incentivo à acção. Só isso explica que consiga rentabilizar melhor 1 hora e 30 minutos, rigorosamente cronometrados com fim à vista, numa viagem de comboio, do que num fim-de-semana inteiro que serve de dispensa reservada às impossibilidades semanais mas afinal sucumbe numa maré de desperdício.

Neste caso, em vez de estar no comboio a pensar "que bom vai ser um fim-de-semana para adiantar tanto do planeado e adiado", será antes um longo fim-de-semana de intermitências com peso na consciência e a encontrar alívio no pensamento: "que jeito vai dar a próxima viagem de comboio para compensar estes dias parvos que interrompem-me sempre no pico da produtividade".

Os fins-de-semana sem viagem de comboio são ainda piores. Não há metas nem redenção possível.

terça-feira, 6 de março de 2012

O Marxismo Cultural Feminista de Bruxelas

Mais uma vez assistimos à omnisciente União Europeia a velar pelo equilíbrio das nossas sociedades, cheias de tendências obstinadas, que carecem de um tutor. Se já é banal assistirmos às regulamentações caricatas diariamente, desta vez elas trazem consigo os laivos do feminismo sedento de tratamento preferencial; referimos-mos assim às quotas por género. Sendo uma das bandeiras sobejamente conhecidas nos últimos anos, sob alçada de recomendações internacionais, revela-se agora na União Europeia a ambição de punir empresas que não promovam mais mulheres nos cargos de administração de empresas.

Uma modalidade mais frequente das quotas por género é aquela que ganha terreno facilmente no âmbito da representação política, contando com a obrigatoriedade na Constituição ou na lei eleitoral de alguns países, como a Eslovénia, Bélgica e Franca, ou com a adesão voluntária por parte de alguns partidos, no caso de países como Alemanha, Noruega e Suécia. Se este critério pode levantar muitas questões nestes casos, a aplicação de imposições e punições por parte de uma autoridade como a Comissão Europeia, atropelando instituições democráticas nacionais e imiscuindo-se nas decisões de empresas, revela-se ultrajante.

Os objectivos são agora declarados abertamente pela Comissária Europeia para a Justiça, Viviane Reding, que já em Setembro de 2011, num encontro de escolas de gestão afirmava:Todos temos de contribuir para que os nossos talentos femininos considerem seguir esse percurso em primeiro lugar. Fico particularmente satisfeita com o envolvimento das escolas de gestão europeias neste processo. Tranquiliza me ver que o sector da educação está seriamente empenhado em atacar as raízes desta desigualdade. O seu desejo tornado público passa pelo comprometimento das empresas em aumentarem o número de mulheres nos conselhos de administração, numa meta de 30%, até 2015, e 40% até 2020. A Comissão Europeia autoproclama-se com autoridade para avaliar progressos de empresas que enveredem por este caminho para então ponderar medidas futuras caso o "progresso" registado não seja suficientemente satisfatório, derivando daí o seu plano implacável contra os tão tenebrosos constrangimentos que teimem em continuar.

Toda esta estratégia vem pisar as bases fundamentais de uma sociedade livre, numa economia de mercado pois começa, desde logo, por contrariar a igualdade de oportunidades. A igualdade de oportunidades nada tem a ver com acertos falsificados de resultados; a igualdade de oportunidades é a completa abertura e liberdade, no ponto de partida, para fazer vingar as capacidades próprias sem interferência do Estado, num meio com constrangimentos próprios que são sentidos por todos e que irá premiar os mais aptos, incentivando os restantes a deslocarem-se para outras potenciais oportunidades. Esta proposta (aliás, ameaça) de quotas é uma machadada na meritocracia quando ousa tentar corrigir a distribuição de mulheres e homens através do favorecimento das primeiras. Considerando-as como grupo oprimido, parecem merecer agora um suposto "ajuste de contas" com a história, onde tudo é lícito, incluindo a redução de representação dos elementos do sexo masculino que tenham conquistado os seus cargos, revertida para o acréscimo falseado na percentagem feminina.

No caso de os empresários assistirem ao avanço desta proposta, ver-se-ão impedidos de continuar a escolher os seus colaboradores com base na produtividade de cada um e a promover o benefício mútuo. Estarão limitados na capacidade de concederem oportunidades aos indivíduos mais habilitados a aplicarem plenamente o seu esforço em determina função e, por outro lado, serão constrangidos a integrar elementos femininos numa condescendência que trabalha para cumprir as estatísticas. Não é racional que um empresário não contrate mulheres e/ou promova uma das suas colaboradoras quando vê sinais de vantagem para a empresa e para os seus lucros. Da mesma forma, é lógico que as diferenças salariais decorrem da produtividade de homens e de mulheres e se existissem razões para deixar de se registar essa desigualdade, os empresários seriam os primeiros a decidir pela alteração, de forma a incentivar os mais competentes a continuarem a colaborar e não escaparem para outro contrato mais atractivo. O que esta proposta vem preconizar mais uma vez é a proibição da discriminação, forma voluntária pela qual os indivíduos, de igual para igual, escolhem ou recusam associar-se a outros, consoante as suas preferências, necessidades, laços pessoais, etc... O impedimento ao acto de rejeição/escolha pode afectar a própria harmonia social de associação pacífica ao contrariar o curso natural da organização e delegação de poder nas empresas e ao forçar o desmantelamento da ordem que o empresário definiu como útil. Mas, acima de tudo, é um factor de desmotivação interna, obviamente ignorado pelo corpo europeu centralizado que define valores homogéneos à força, ditando prazos para consumar a sociedade perfeita.

A ideia de que é necessário procurar uma proporcionalidade estatística como ponto de equilíbrio é negar que existem desigualdades em consequência de diferentes características pessoais e de desempenho e pretende, somente, usar o discurso igualitário para fazer avançar legislação favorável, envolta na típica justificação de complexidade social que só a burocracia do Estado pode vencer. Numa sociedade livre, cabe ao proprietário escolher contratações e demissões, no sentido que potencie mais a sua vantagem competitiva no mercado, enquanto o pretensioso discurso oficial do "longo caminho a percorrer" incorre somente em desperdícios ao tentar aplicar receitas contra a divisão do trabalho e diversidade voluntária. As quotas por género, ao ignorarem indivíduos e circunstâncias concretas, no tempo e no espaço, soam como reparações de guerra que o sexo oposto parece estar obrigado perpetuamente a pagar.

"So far as Feminism seeks to adjust the legal position of woman to that of man, so far as it seeks to offer her legal and economic freedom to develop and act in accordance with her inclinations, desires, and economic circumstances—so far it is nothing more than a branch of the great liberal movement, which advocates peaceful and free evolution. When, going beyond this, it attacks the institutions of social life under the impression that it will thus be able to remove the natural barriers, it is a spiritual child of Socialism. For it is a characteristic of Socialism to discover in social institutions the origin of unalterable facts of nature, and to endeavour, by reforming these institutions, to reform nature...." Ludwig von Mises

Publicado inicialmente no Movimento Libertário

domingo, 4 de março de 2012

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

One Of Us Cannot Be Wrong

I lit a thin green candle
to make you jealous of me
but the room just filled with mosquitos
they heard that my body was free
then I took the dus from a long sleepless night
and I put it in your little shoe
then I confess that I tortured the dress
that you wore for the world to see through.

(...)

I heard of a saint who had loved you
so I studied all night in his school
He taught us the duty of lovers
was to tarnish the golden rule
And just when I was sure that his teachings were pure
he drowned himself in a pool
His body is gone but back here on the lawn
his spirit continues to drool.

Leonard Cohen

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

vai dando para remediar

Poucas coisas são mais desanimadoras do que procurar exemplos completos, numa realidade tão teimosamente corrompida e que anda sempre com muitos passos de atraso em relação à nossa expectativa. Esgotados os países, concluo que este mundo é feio demais para ser investigado. Na impossibilidade de aplicar os critérios ao contexto de Marte ou da Lua, resta descer o patamar de exigência, ser muito pessimista para tentar ser surpreendido de vez em quando e meter algum "idealismo" na gaveta, a mero título provisório. Já tenho o Top do Index of Economic Freedom todo riscado. É um grande chapadão novo todos os dias... mas vamos lá tentar dar a outra face, outra vez.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A SIC Mulher encadeia-me os olhos


Ninguém é excepcionalmente inteligente ou louco solitário quando afirma, no meio da manada, não suportar programas de canais generalistas ou temáticos – estes últimos que permitem dividir por categorias o tipo de trampa que estamos mais predispostos a ver em dado momento para rentabilizar melhor o tempo (embora ninguém que se amarfanhe no sofá, estilo alforreca, apresente sinais convincentes de ter amor ao tempo útil).

Sendo uma idiotice batida, ainda assim eu insisto em falar em mediocridade televisiva porque há um programa, em particular, que sempre me incomodou. A maioria deixa-me indiferente e consigo mudar mas aquele desperta-me desespero e vontade de partir paredes falsas e chamar o MacGyver para engendrar uma bomba com velinhas de cheiro e incenso nos bastidores.

A consistência que alimenta a coisa é: existe alguém que tem uma casa que não lhe agrada porque se cansou do estilo, ou não teve condições de investir na manutenção, ou era uma casa enorme e acima das possibilidades/necessidades, ou a casa da vizinha e da novela é “tããoo mais linda que a minha”, ou ainda (neste caso seria eu a solicitar) porque quer pregar um susto de morte a um familiar ou amigo e entrega a residência a um bando de gays e trintonas loucas, especializadas em revestimento delicodoce de madeira palha. O investimento fica a cargo das marcas que têm os seus minutos de fama, as pessoas “ganham” uma nova decoração e o canal televisivo ganha programação para encher muitas horas.

O programa pode ensinar-nos então algumas das manias que as pessoas têm, entre as quais: convicção de que alguma entidade externa e desconhecida consegue revolucionar o nosso bem-estar muito melhor do que nós próprios; ilusão de que um capricho ou mudança de humor, ou mesmo uma necessidade, pode ser respondida no imediato e sem grandes custos; ideia de que existirá sempre, algures, alguém desinteressado que nos paga almoços porque nos quer melhorar a vida, só porque sim; e mania de gerir a vida a toque de entusiasmos rápidos sem capacidade de ponderar desvantagens e desconfortos a longo prazo. Visto isto, diríamos que o programa até é bom porque nos ajuda a pôr em evidência estas tendências que se aplicam a outras áreas. Mas assistir a isto em bruto…

Como digo, todos ganham mas os indivíduos que são servidos no programa ganham entre aspas. Ganham a intromissão de gente em casa que teve aulas práticas em casas de bonecas com mestrado em bibelôs. Eles agarram nas grades mais inúteis que já tivemos na nossa vida, ao fundo do quintal, e pincelam a rosa choque; rapidamente aquela grade ferrugenta onde a nossa cadela sempre entalava o pescoço, ganha mais cor e isso surpreende-nos muito. Abrem um furo para pendurar um expositor de talheres na cozinha mas rebentam-nos os canos mas – “Rápido, tragam-me um quadro do Mário Cesariny! Fabuloso, olhe, mal se nota”.

Acho que isto basta para deixar bem representado o cenário de improvisos almofadados, durabilidade de ikea, ambientadores inibidores da podridão, células mortas envernizadas, sobreposição forçada de elementos exóticos e padrões afeminados que nos dão vontade de enfiar a cabeça no primeiro abajour que aparecer à frente. Até os cenários do cinema western conseguem parecer mais consistentes que aquela fragilidade pintada a verde alface, flores de plástico e os cristais Vista Alegre que ninguém usa para comer os cornflakes ao pequeno almoço. Ou os sofás de jardim que se enchem de húmus no Inverno enquanto as barraquinhas voam para o quintal da vizinha.

A obsessão com a mudança radical à responsabilidade de terceiros, o investimento (nem que seja a crédito) sem questionar a verdadeira utilidade e a indiferença perante o risco iminente de desmoronamento são sinais que estão no "Querido Mudei a Casa" e em todo o lado. Simplesmente, a maioria das pessoas não pensa duas vezes antes de delegar funções ao primeiro larilas que se diz especialista mas nunca teve de aspirar a desviar-se dos emplastros ou que não tem miúdos em casa que levem com o Buda na mona depois de tropeçar no candeeiro em forma de papoila gigante. A megalomania e os papéis de parede coloridos só tapam as paredes de terra batida entre pessoas que não percebem que depois do programa, depois de dispensar o acessório e as distracções – vidrinhos, espanta espíritos, gaiolas vazias e velinhas – deixaram que lhes construíssem um lar à base de prateleiras padronizadas e baratas. Ninguém dá nada a ninguém e ninguém sabe melhor gerir e decorar a vida do que nós próprios. Até nisto, as lições começam em casa.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

If I only could, I'd be running up that hill


And if I only could,
I'd make a deal with God,
And I'd get him to swap our places,
Be running up that road,
Be running up that hill,
With no problems.

repetem-se e renovam-se

Os observadores tácitos somavam à hesitação, a falta de apetite. Os grandes movimentos iam cheios de desperdício, cambaleando e enchendo e reenchendo o copo a tapar a vergonha com a gargalhada torpe, repetindo trivialidade e em fuga dos embaraços cerebrais. Não se percebia se a ostentação descansava nos intervalos ou se a normalidade pesava na actividade teatral e expunha os embustes. Mas não faz mal porque mal se nota. Notavam os observadores; a observação de tão exagerada e perspicaz sentia náuseas dos sucessos desses anónimos que tudo abraçam. Só a ideia, de tão remoída, bastava para repudiar a experiência de vender a alma e aumentar a actividade. Observar era uma actividade mais contínua e de acréscimo do que a abrupta sede dos mais vistosos mas subitamente declinados. Apunhalados às escondidas por escolha própria, desprevenidos no próprio alvoroço. Apunhalados de olhos abertos nunca conseguiam ver tanto como os que, desde sempre os observaram, silenciados à margem do delírio. Não sobra nada para além das frames registadas a olho nu e o retrato derrotista que a ninguém aproveita. Os apunhalados eram repetições, as sistematizações completas do que não desejar. Entre a falta de apetite e a repugnância diante dos apunhalados, só há desperdício mas por existirem eles e os punhais, há desgaste a mais aqui. Se deixarem de existir os apunhalados, os que esvaziam o copo cedo demais para não o entornar, o desgaste estará entre os observadores e será ainda mais técnico e pesado.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

incentivo

É quando somos comparados ao que de pior evitámos durante anos; quando se ofendem com tudo aquilo que nos esforçamos por saber dizer; quando tudo o que de valor fizemos é olhado com desprezo, face aos pecados dos piores seres que conhecemos; quando as coisas em que nos dedicamos são depreciadas como caprichos insignificantes; quando nos ameaçam tirá-las com o indiferente contentamento de nos pisar os ossos. É quando este insulto não desperta em nós nenhum arrependimento mas provoca uma revolta insuperável e nos iramos para defender tudo o que foi ultrajado. É nessa altura que percebemos que escolhemos e trabalhámos para nós e não para agradar aos outros. O que nos fizeram não foi uma ofensa. Foi um meio violento de confirmação. Uma forma de nos assegurarmos.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Fuga aos Democráticos Assassinos em Massa

Perante uma briga no recreio entre um filho e um outro colega, quantos de nós sairíamos de casa, de arma em punho, dispostos a aniquilar todos os filhos dos nossos vizinhos? Seria obviamente uma acção desproporcional e – a menos que um pai muito rancoroso considerasse isso racional dentro da sua percepção de valor – a maioria de nós concordará que os custos que decorrem dessa atitude seriam incomparavelmente superiores aos benefícios e a via pacífica do diálogo entre os envolvidos, seria preferível para prevenir futuros incidentes. Contudo, não é este entendimento que está subjacente às intervenções do Estado e as justificações para esforços adicionais que a democracia protagoniza estão, não raras vezes, alheias a cálculo de respeito pelas liberdades dos indivíduos.

Na presente época eleitoral nos EUA, Ron Paul é um visto como infiel, um perigoso pacifista e "isolacionista", em ambiente de cruzadas santas. A resistência republicana conservadora continua abraçada aos interesses corporativos e a promover o genocídio que assenta na mesma propaganda que "incendiou" a Europa, na primeira metade do séc. XX e que institucionalizou o dualismo moral das guerras em nome da segurança da democracia, desde o legado do presidente Wilson. Só uma visão bipolarizada e viciada da realidade mundial pode explicar a continuidade destes defensores do intervencionismo desmesurado que provoca indecisão até no pensamento de alguns liberais, esquecidos estes de que a paz é a condição fundamental para o livre comércio e respeito mútuo entre as nações. É curioso observar que são os próprios militares e veteranos de guerra a apoiar Ron Paul, sendo que em 2008, o financiamento destes ao candidato libertário superou a quantia total dirigida aos outros candidatos republicanos. Entretanto, a incoerência de declarar guerra a países considerados "não democráticos" para os educar e evitar conflitos futuros fica imune a críticas graças à legitimidade da democracia como religião política contemporânea.


Considerar que as forças de protecção monopolizadas pelo Estado são insubstituíveis porque terão como atributos a prontidão, infalibilidade e imparcialidade é ignorar todos os desperdícios da ambição expansionista e esquecer que todas as necessidades no mercado motivam o surgimento de oferta diversificada que maximiza a qualidade do serviço e adapta a acção no sentido da eficiência, neste caso, na defesa pura de vida, corpo e propriedade. Enquanto cada um de nós reúne informações próprias e únicas que permitem entender se precisamos de câmaras de vigilância espalhadas pela casa ou se podemos ausentar-nos por momentos e deixar a porta aberta, o Estado democrático não tem limites e graus ponderados de prevenção e violência a aplicar, pois despende muitos recursos na procura de alguma informação possível e organiza os meios, somente em favor dos grupos que são mais determinantes para a reeleição.

Produção de segurança puramente privada é superior a qualquer esquema compulsivo, pois encontra alternativas na ordem social que conseguem ser altamente especializadas e respondem de forma mais produtiva com melhores produtos às necessidades particulares. Se uma agência de segurança privada não é mais eficaz e menos dispendiosa, como explicaremos as escolhas em favor do fornecimento privado de segurança nas Universidades, Hospitais e em muitos outros espaços, quer públicos quer privados? A normalidade com que decorre o seu desempenho mostra que os "mercenários" não envolvem um risco maior que dê azo a abusos, comparando com a segurança de provisão estatal. É, por seu turno, a militarização das democracias e um certo incitamento ao ódio que sustenta decisões que não são racionalmente úteis para a sociedade e até os militares perdem noção de preço dos actos. O Estado define o valor aceitável para dada "missão" e reduz tudo a uma escolha moral colectiva. Isto esvazia a função de defesa e conforme o testemunho de Roman Skaskiw, – enquanto veterano de guerra norte-americano convertido à escola Austríaca – hoje, o papel do soldado como provedor de segurança é de importância secundária porque funciona mais como expressão de orgulho e identidade nacional. Isso seria muito difícil de imaginar numa agência privada. Skaskiw defende ainda que os preços de mercado e patrocínio voluntários são restrições muito mais eficazes para moderar o belicismo do que qualquer constituição.


Ninguém fica satisfeito com um alarme que está constantemente a disparar, não estamos descansados se o nosso cão de guarda morde todos os nossos vizinhos e também não permanecemos num espaço comercial por muito tempo se a presença dos serviços de segurança se sobrepuser a todo o ambiente. Estes exemplos têm em comum a perda da utilidade para o qual estariam destinados, porém, são facilmente corrigidos pela adaptação dos nossos comportamentos. Pagar custos directos da guerra é passo decisivo para a paz porque se a ligação entre financiadores e beneficiário desaparece, vai incentivar a criatividade ilimitada face a inimigos externos e a invocação de consenso democrática para dar espaço a free-riding. Lidar com o perigo que tem uma certa probabilidade de acontecer e proteger a vida e os bens materiais deve estar intimamente ligado às preferências dos indivíduos e à intensidade do esforço que estão dispostos a empreender.

Assim como na segurança interna, também a nível externo a indústria da segurança privada está em clara expansão e o leque de oferta é bastante variado. Estas agências são, frequentemente, contratadas também pelos próprios governos o que deve suscitar algum cepticismo, face à possibilidade desta alternativa ser desvirtuada e usada para canalizar, por via indirecta, recursos dos contribuintes para favorecer pactos com algumas destas agências. Embora os incentivos que potenciam a corrupção das instituições, públicas ou privadas, estejam sempre presentes, vale a pena referir exemplos que revelam a operacionalidade das alternativas. Entre as muitas agências que se têm multiplicado, encontram-se: Chase Waterford (Personnel e Special Projects), AirScan Inc., Background Asia, ArmorGroup International, e ainda Academi (inicialmente denominado Xe Services LLC), entre muitos outros exemplos espalhados pelo mundo.

Enquanto o estado conserva a função de protector mas serve-se dela para justificar a agressão incessante e tributação pesada sobre os cidadãos, uma agência privada não pode voltar-se contra os seus clientes graças à concorrência frente a agências que ofereçam melhores condições.
A ideia de que as democracias não iniciam guerras e que não se desenvolvem guerras entre estados democráticos tornou-se um axioma entre especialistas de relações internacionais e burocratas ocidentais que actuam sobre o "chapéu" da defesa dos direitos humanos. A luta contra as supostas autocracias e a condescendência para com intervencionismo norte-americano mostram como a tendência para a violência pode arrastar até o apoio popular de forma gradual, perdendo de vista o respeito pelo território de terceiros e a racionalidade de resposta exclusivamente em caso defensivo.


A própria lógica eleitoral reúne incentivos perniciosos que levam à militarização sem preocupação pela preservação da propriedade, ao contrário da moderação com vista ao longo prazo que é característica das monarquias. O comportamento beligerante leva a uma centralização de todas as infra-estruturas em torno de guerras ideológicas distintas de outras soluções em que os indivíduos escolhem entre agências quando percepcionam o perigo que justifica o investimento. Escolhem pela prevenção e defesa sem atropelar as prioridades diárias, como o comércio e os assuntos da comunidade local comum, com um discurso atemorizador permanente. Os próprios relacionamentos de proximidade inibem focos de violência e as sanções morais e vínculos entre indivíduos desempenham a função dissuasora que nenhuma estrutura coercitiva artificial pode suplantar.

Publicado inicialmente em Movimento Libertário.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Até uma formiga aprendia isto

Within the frame of social cooperation there can emerge between members of society feelings of sympathy and friendship and a sense of belonging together. These feelings are the source of man’s most delightful and most sublime experiences. They are the most precious adornment of life; they lift the animal species man to the heights of a really human existence. However, they are not, as some have asserted, the agents that have brought about social relationships. They are fruits of social cooperation, they thrive only within its frame; they did not precede the establishment of social relations and are not the seed from which they spring.

MISES, Human Action.

Se não perceberam como funciona, perguntem a estes tipos :

Ajuste


Quanto mais compulsivo é um longo e amordaçado "diálogo", mais qualidade e força ganha a resposta incisiva que o desfecha.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A group must be formed and maintained at a certain cost. A group excludes some and includes others. The primary form of a larger group is the linguistic community; the communities range from clans (extended family) to tribes and, eventually, to nations. A nation is originally a linguistic community. In the wake of the French Revolution and the ensuing democratization of war (with the introduction of general conscription in 1793— one of the evils bequeathed to us by the French Revolution), “nation” got its political connotation. And with it, the ideologization of war followed, which culminated in the twentieth century, when “democracy” became the new state religion, and the enemy was eo ipso declared to be “undemocratic,” i.e., an unbeliever. Wars became holy missions, crusades. Think of Wilson’s slogan: “To make the world safe for democracy.” In the totalitarian state, whether Soviet socialist, national-socialist, or a totalitarian democracy, war becomes total.

Gerard Radnitzky, Is Democracy More Peaceful than Other Forms of Government?